SOMBRAS COMUNS
Uma colaboração feliz. Talvez porque os artistas respeitaram
as respectivas singularidades; talvez porque as obras, algures, apesar
das suas diferenças, se tocam; talvez porque o espaço
de partilha foi mais o das ideias do que o das formas. "Dupla
Sombra", de Rui Chafes e Pedro Tudela, é um exemplo de
um projecto em comum: nota-se quem fez o quê, mas sente-se igualmente
a vontade de cruzar experiências, olhares e obsessões.
Dividida por uma galeria e um museu de Viseu, a mostra constitui também
uma reflexão acerca da tragédia que habita o ser contemporâneo.
"
Dupla Sombra" mistura assim obras de Chafes e Tudela, uma situação
mais conseguida na Ah-Galeria de Arte Contemporânea do que no
Museu de Almeida Moreira (MAM), onde cada artista apresenta uma instalação.
No espaço comercial, quatro negras esculturas de diferentes
dimensões, em ferro, de Chafes (uma cruz numa extremidade, na
outra, uma espécie de casulo ou remendada gota), espelham-se
noutras tantas pinturas de Tudela, apresentadas na parede oposta. Os
trabalhos bidimensionais, que incluem espelhos ou superfícies
que reflectem a envolvente, podem ser vistos na herança de todas
aquelas obras onde o autor propõe uma reflexão acerca
de si enquanto elemento essencial do processo criativo: de Vermeer
a Velazquez, de Van Eyck a Dan Graham.
Numa outra sala, uma outra escultura de Chafes dialoga com uma peça
com som de Tudela: neste espaço, o ambiente é de tensão
e asfixia - os ruídos aprisionados numa campânula parecem
ecoar as subtis sombras que atravessam a grade da escultura. Esta é,
aliás, uma mostra por onde passam problemas relacionados com
a devastação quer da natureza, quer do humano, quer ainda
com o "clima de guerra que o mundo está a atravessar",
como sublinha o escultor.
No MAM, Chafes instalou "Lições de História",
uma obra paradoxal formada por 13 trabalhos em ferro que representam
cordas de forca, cuja função é impossibilitada
pela curta distância entre as esculturas e o chão. Nessa
proliferação de objectos simultaneamente violentos e
ascéticos, uma característica comum a muitas das peças
do artista, pode também intuir-se uma vontade de assinalar,
e contrariar, o absurdo que muitas vezes invade o quotidiano: esta é,
portanto, uma obra que manifesta uma repulsa pela barbárie (tal
como as cruzes, a corda de enforcado é um objecto associado à morte).
Num outro espaço do museu, Tudela propõe a instalação "Quarto
Sentido", na qual quatro projectores de 300 watts iluminam uma
parede amarela de onde caem, murchas, mangas de vento idênticas àquelas
visíveis nas estradas. Um ambiente sonoro formado por perversos
suspiros completa a cena. A disfuncionalidade e o paradoxo são
as principais características de um trabalho que surge na sequência
das investigações do artista relativamente às
alterações dos significados dos objectos quando estes
são deslocados do seu contexto. É que, neste caso, aquilo
que se vê e ouve pode não ser exactamente aquilo que parece.
A colaboração entre Chafes e Tudela resulta numa atmosfera
próxima da recriada em alguns clássicos, quer do cinema
de terror das primeiras décadas do século XX, nos quais,
como observa o primeiro, os elementos "ou perdem a sombra ou possuem
várias simultaneamente". A esta referência podem
ainda juntar-se os filmes de ficção científica,
onde humanos e "aliens" se entredevoram até nada mais
restar do que um espaço vazio, do qual foi também expulsa
a memória de uma outra existência habitada por afectos
e silêncios.