A massa gelatinosa vinha de trás, isto é, o olhar nascia
noutras épocas, aparecia antes do homem, no peixe ou no insecto,
na prospecção de espaço.
Os astros não têm olhar. Parecem emitir mensagens luminosas
na sua solidão cega. Mas se querem dizer qualquer coisa é
uma coisa grotesca, ainda que simpática. É um grunhido
mudo. É o Eros inicial antes de Urano e Geia, antes do Céu
e da Terra. è a cópula infinita antes de se saber que
é cópula.
O universo é mais pegajoso do que parece. Há uma continuidade
metamórfica entre tudo. E provávelmente há eternidade
onde não há consciência, mas é uma eternidade
co-existente com o seu absurdo, que não serve para nada, nem
tem uma centelha de sentido. Visto de longe o mundo ainda é mais
estupido que a morte, porque a morte sempre tem um bocado de vida por
trás. Minuscula, mas assim mesmo esse pedacinho infinitesimal
é um rival temível das estrelas titânicas, com os
planetas em carrossel à volta, girando por coisíssima
nenhuma.
A matéria é opaca relativamente a si mesma. O mundo é
glorioso na sua desmesura. Pompa sem nada a esconder, onde tudo se perde
e nada se ganha. O barroco, pelo contrário, tem que elidir pelo
excesso de acumulação de interrogações.
Daí a elipse, como deformação do círculo,
quase como se alguém tivesse amolgado este com um buldozzer.
Mas a deformação surge porque há coisas a mais
dentro do circulo, e como tal tem que se iludir elidindo, numa falsa
economia. Também mo olho nosso há um perlongamento dessa
anamorfose, dessa vontade de propagar ilusões à volta,
de encher o que se sente de outros sentimentos. Isto recorda-me o óculo
seiscentista com que do meu beliche de infância via a rua estreita.
Em frente, uma porta grande de um edificio antigo, que me lembre, sem
janelas para este lado da rua (mas agora, vendo bem as coisas, talvez
as haja, altas, sem ninguém a espreitar para cá, são,
assim, janelas sem efeito, sem existência na memória).
Era, e ainda é, um albergue, com a seu mundo dickensiano por
dentro feito de mendigos, bêbados e moribundos. Os que podiam
passavam o dia na taberna bebendo vinho a martelo e jogando ao dominó.
Noutras horas sentavam-se nos degraus das portas fechando os olhos e
deixando a face ser bronzeada. Esperavam nada. Assim, foi este o meu
primeiro enquadramento sistemático do lá-fora, da vida
que não era a minha, mas que entrava nela como uma visão
lenta daquilo que não desejamos. As portas do albergue fechando
ao anoitecer dizem que tudo um dia se fechará defenitivamente,
e a natural ângustia desse fecho leva-nos a procurar um explendor
que lhe resista, uma máquina de produzir revelações.
Os fundamentos dessa maquinaria criei-os no mesmo beliche com a mesma
janela em frente, lendo contos egípcios em que o mundo era encantado
através de fórmulas que só alguns sabiam ler, em
quer se falava da paixão insaciável do saber e dos perigos
que ela encerra.
Quando nos chegam sinais de estrelas passados milhões de anos
luz um pestanejar acolhe essa dádiva perdida no tempo. Acolhimento
singular e desfazado que faz com que o tempo pareça um efeito,
um intervalo entre distâncias que não podemos sentir nem
medir. Há uma desmesura sem peso ou consistência que é
quase o vazio, mas que sobra a toda a pretensão de uma vacuídade
absoluta. A mais-valia do sentido começa nestes acrescentos raros,
nesta poeira sem pó. Considera-se o "entre", e pelo
que está entre nós entramos.
Quando é que surge o olho? O olho inicial é ciclópico,
apreende hipnóticamente, busca as presas determinando a forma.
Por isso o olho só pode ter surgido depois da boca, como fome
excedente, como busca de vítimas na distância. A boca atira-se
ao que está próximo. Pode perssenti-lo por vibrações
no corpo, pelo cheiro ou pela escuta.
Mas o que interessa é o terrivel acto de absorção
e destruição, de próximidade mais que próxima.
O olho introduz a voracidade metafórica, o comer com os olhos.
Por isso a metáfora move-se sermpre num espaço subliminar,
è uma predação sem predação. Não
há presas mas uma apreensão de imagens que ficam guardadas
naquilo a que chamamos imaginário. A capacidade dessas imagens
se combinarem com uma certa liberdade é uma outra voracidade,
uma digestão que realiza plenamente e com excedente o que o olhar
deixou de fora. Há uma compensação na sublimação
mais forte que a saciedade.
Os animais para se reproduzirem podem ser invisuais: a forma é
forma antes de ter consciencia de si mesma. Por isso a escultura é
menos visual que a pintura, permanecendo prisioneira da sua materialidade,
cativa da sua massa e peso. A escultura é uma coisa em que se
tropeça, que nos esbarra o caminho, mesmo quando não o
esbarra. A escultua é a aporia, o obstáculo que o pensamento
tem que contornar para se constituir.
Agrada-me a ideia de que a filosofia se tenha deixado gerar a partir
da escultura e a sofística da pintura.(1)Não
sei lá muito bem se isto é verdade, mas tenho a ideia
de que Sócrates trabalhou no atelier de Praxiteles. A escultura,
pela sua materialidade ( e maternidade, não esqueçamos
que há um feminismo socrático que associa o Eros ideal
ao parto no qual a beleza rebenta ) é sempre mais que o mero
simulacro da pintura, esta ultima com as suas ganas ilusionistas, procurando
mimar o mundo como um camaleão. Daí que os gregos lhe
chamassem "zoographos", a inscrição do vivente.
Mas a nossa ideia de olho Ciclópico vem não só
dos animais primordiais, mas da ideia de omnipresença solar.
O Sol é aquilo a que os povos mais naturalmente associaram a
um criador, é o ilustre demiurgo que só pode rivalizar
em poder com a imensa noite e a sua transfiguração nas
fases lunares, porque a Lua é aquela que dissolve no indistinto,
no incompleto, no insaciável.
Assim, o sol, e o correspondente deus, revela-se totalitário,
como vigilante astuto para o qual todos os pensamentos se tornam visíveis,
deixando-se renovar na sua fecundidade pelos hálitos pardacentos
da noite. Nela o olho surge como complementaridade da escuta esquecendo-se
das suas caçadas. Os pequenos pontos luminosos têm propriedades
hipnóticas que não residem apenas no sono, mas que incendeiam
as imagens retidas uma vez mais, antecipando uma vastidão de
aspectos que se estende para lá de todo o espaço e todo
o tempo. Há a vontade de chegar onde os Demiurgos não
chegaram, de introduzir um aumento à Criação que
trespasse todos os limites.
Neste tear nocturno a Penélope intima tece um Ilimitado a que
Ulisses não porá cobro. Apeiron serpentino...
(1) Esta
ideia, foi-me reforçada depois de lêr o segundo parágrafo
das "Imagens" de Filostrato do qual passo a citar um excerpto:
"Há muitas formas de arte plástica : o modelado própriamente
dito, a imitação em bronze, a obra dos que trabalham em
mármore branco de Páros, o talhe em marfim e, por Zeus,
até a gliptíca! A pintura, pelo contrário, está
baseada nas cores, e, embora só se sirva destas, com elas se
tem melhor engenho do que as artes plásticas com os seus multiplos
meios. Porque reproduz o sombreado e permite reconhecer o olhar do louco
ou de quem está triste ou alegre. Um artista plástico
(escultor) não é capaz de reproduzir o brilho dos olhos,
enquanto a pintura sabe representar o olho azul, verde ou negro, e conece
também a cabeleira loira, ruiva ou dourada, a cor dos vestidos
e das armas, as povoações, as casas, os bosques, as montanhas,
as fontes e a atmosfera que envolve tudo."
Mas esta analogia entre a Sofistica/Pintura versus Escultura/Filosofia
porlongar-se-à na preferência da sofistica pelo romance
onde a realidade é falsificada como se parecesse uma mimesis
e a Poesia como lugar onde a Verdade (embora uma verdade distinta da
filosófica) já desligada de qualquer intenção
de forjar algo que se pareça real, é vivida como fantasia
do Ser. È certo que esta ideia é redutora, mas há
uma tendência natural para encarar a pintura e o romance como
dominados pelo pseudos e a apaté e a escultura e a poesia como
lugares onde a aletheia se dá de um modo fulgurante. Veja-se,
por exemplo, Heidegger.