O JOGO DOS PRETEXTOS
Pretexto como poderia ter escrito contexto. Vontade de deixar que permaneçam
reconhecíveis as determinações mais globais, as
circunstâncias específicas, alguns acasos que, de fora
para dentro, chegaram a ser relevantes no processo de um trabalho.
Fundamentalmente dois tipos de sinalizações: as de um
contexto social global, o de Portugal, nas suas mais ou menos traumáticas
variantes regionais; as de um universo audiovisual que faz a evidência
da actualidade por todo o lado e, também, no rádio e no
televisor de cada dia.
Um título de exposição como «Portugal emigrante»,
trabalhos sobre e com objectos consagrados do kitsch nacional, manifestam
a intenção de não deixar de dar testemunho de uma
envolvente social e cultural cujos efeitos se sentiram como dificuldade,
ameaça de bloqueio, consciência da necessidade de ultrapassagem.
Mal-estar de que, a ser sentido, cumpre dar conta em nome da autenticidade;
e que naturalmente tenderá, e tende já, a desaparecer,
à medida que a afirmação do trabalho inteiramente
se sobreponha ao problema da afirmação.
O segundo tipo de sinalizações é menos prescindível
porque vem directamente da galáxia das imagens e dos sons até
à intimidade de cada um. E também porque sendo constituído
por imagens se incorpora, pela sua própria dinâmica, no
conjunto das matérias primas do processo de produção
imagética. O perfil de cantores rock, o dedo do E.T., o ritmo
coleante de «La Bamba», o correspondente bojo do cogumelo
atómico, «la bomba». Para além da sua eficácia
referencial factor de datação do trabalho
e ainda porque são imagens, produzem outros dois tipos de efeitos:
efeitos formais, por inclusão num universo de formas que se procuram
e organizam na base das suas afinidades morfológicas, e que se
autonomizam progressivamente do seu valor referencial para organizarem
um universo imagético de objectos abstractos; efeitos rítmicos,
porque o balanço das linhas de contorno das formas que serviram
de pretexto, se propagam na superfície da tela, impulsionando
os ritmos da composição, fazendo, cada vez mais, desta
composição e dos respectivos ritmos a razão de
ser ali das formas.
A mesma ambivalência deste segundo tipo de sinalizações
acompanha títulos - «Bur-bulha», «Ad...mir...ad...o»,
«Ou...video» - em que de uma referencialidade anedótica
se desprende uma irónica sugestão puramente rítmica.
A DERIVA DAS MOLÉCULAS
Assentamos em que uma parte substancial das formas referenciais são
retidas em função da sua capacidade de dinamização
e enriquecimento de um universo tendencialmente abstracto, em que as
formas se compõem segundo um jogo de afinidades morfológicas.
Formas esféricas, ovais, ovoides, tubulares. Superfícies
translúcidas, transparentes, viscosas. Redes, ramificações,
canais, estratificações. Ondulações, sobreposições,
empolamentos, fluídos, coagulações. Um sistema
de sugestões formais e texturais que aponta: do lado do concreto,
para uma devassa dos organismos em visão transversal, clínica,
microscópica, molecular; do lado da fantasia, para universos
fantásticos de filiação surrealista em que primitivos
corpos orgânicos tivessem evoluído para um estatuto de
enigmáticos componentes de paisagens oníricas.
E no entanto a lógica nunca é da representação.
Nem de corpos reais nem de corpos imaginários. Não há
terceira dimensão, a não ser a dimensão insólita
introduzida pela colagem de alguns objectos, as formas não se
organizam de forma narrativa nem cenográfica, nunca se chega
a esboçar uma cena nem sequer um cenário.
As formas são, sobretudo e cada vez mais, os suportes e impulsionadores
de problemas de composição e de ritmo que em tudo se decidem
e de tudo decidem na superfície bidimensional de cada tela.
A vocação representativa passa a segundo plano perante
a exploração das possibilidades de exercitamento de jogos
de composição. Dois princípios inspiram estes jogos.
Um princípio de contiguidade formal, que tem a sua manifestação
mais recorrente em zonas de composição por propagação
de ondas concêntricas, sobredeterminadas pela sobreposição
de outros focos de ondas de diferentes recortes; criando assim sucessivos
e acumulados problemas de delimitação de fronteiras, problemas
que constituem o mais estimulante, e simultaneamente o mais difícil,
da resolução global da composição.
Um princípio de contraste e ambiguidade que vem desautorizar
visões monotonizadoras ou excessivamente apaziguadas. Através
da introdução de factores perturbadores inclusão
de objectos insólitos, enfatização de elementos
ostensivos ou provocatórios, erupções do kitsch
e do feio. Ou ainda, de forma menos fácil ou menos óbvia,
através da sistemática utilização dos contrastes
formais as curvas e as rectas -, cromáticos e luminosos
os brilhos e os mates -, texturais o liso e o rugoso,
o líquido e o espesso, o lambido e o mal acabado.
Uma radicalização e adensamento dos processos de distanciação
em relação ao pretexto e ao contexto social e circunstancial.
Uma obstinada exploração dos modos de, pelos contrastes,
os jogos, as matérias, a composição, forçar
os limites demasiado redondos da figuração de um universo
real ou imaginado, que se pudesse tornar demasiado reconhecível,
com o correspondente risco do apaziguamento redutor. Forçar os
limites, de uma maneira obstinada.
«O palco da janela» é um título de uma pintura.
Não é uma janela por onde o real possa entrar, sair, espreitar
ou ser espreitado. Não é um palco onde a imaginação
possa montar a tenda e pôr-se a contar histórias, a dar
espectáculo às gentes. Sabe que há palcos e janelas
no passado da sua memória e na maneira de pôr o problema
do seu ser. Sabe e é depois, e portanto deve ser mais, e em certa
medida será contra. Uma pintura.