Um feixe de luz trespassa a pele.
Circula pelo sangue, vibra, e ao atingir o coração
com a sua melodia de lumes e de ecos transforma os ritmos imutáveis
das seivas e das artérias.
Sempre foi difícil mergulhar para dentro de um copo.
Não se sabe se haverá regresso e ele não pode afirmar:
- A vida do meu corpo é a minha vida.
Porque aquele que percorre o escuro das veias, arde e os astros
que levava consigo ficaram envoltos em chamas.
As mãos azuladas cobrem-se com esta cor esbranquiçada,
que mais não é do que um presságio de cinzas. E
o corpo, com suas texturas e viscosidades, é o túmulo
da noite.
Nele coagulam os fogos celestes e se apagam as paisagens.
Lavradas as terras dos mortos, ele vai pela insónia dos vivos.
Avista outros corpos que levantaram voo com as aves e desaparecem, para
lá do brumoso fio do horizonte
Espreita pelo microscópio. Nos dedos já não cintila
a generosidade dos homens.
Os corpos adquiriram a dimensão do desejo que não tiveram
desenvolvem as suas próprias pestes.
E das pálpebras fechadas onde pernoita excluiu as efémeras
imagens do mundo. Perdeu-se onde não há nomes.
Um dia, saber-se-á de uma destas gotas de vida irromperá
um deus ou um insecto, um homem ou uma planta.
Resta-nos, por agora, observar aquilo que não veremos crescer
e tomar forma conhecida.
Não se pode nomear o que estremece e começa a erguer-se.
No início são organismos translúcidos, caminhos
tubulares por onde procura uma saída.
Manchas , canais por onde o olhar desce até alcançar espessuras
gelatinosas, brilhos, líquenes de órgãos inacessíveis
ao tacto.
Nada se assemelha ao que conhecemos. Ignoramos a função
destes órgãos a que espécie de corpo pertencem?
Estamos algures no fundo de um corpo. Desconhecemos se alguém,
lá fora, o olha ou pode tocá-lo.
A alma é húmida.
Por isso, deste corpo ele se despede e destes rios cuja rubra
luminosidade dissolve as paisagens que tentou preservar: o pássaro
que cegava com o perfume das glicínias, a abelha posada na corola
crepuscular da terra. O húmus fresco do sonho, o mar preso na
mão que abandonou a sua sombra no lado de dentro do rosto.
O rosto, onde vive o rosto com suas ramificações de sal?
Ele caminha até onde pode. Apaixonado, absorto com aquilo que
mal se levanta e, simultaneamente, o destrói.
Enquanto avança, sussurra:
- Não é o que digo que corre riscos, quem arrisca sou
eu.
E, ao morrer, falará do corpo como se falasse de um refúgio.
Mas é cedo ainda. Talvez se ponha a sangrar dos pulsos. Porque
é provável que exista ainda harmonia entre a vida oculta
do seu corpo e o universo.
É provável que haja cumplicidade entre um astro que se
extingue e o tempo que pulsa no seu coração.
in O Anjo Mudo obras de Al Berto / 4 Assírio &
Alvim 2000