A ALMA É HÚMIDA
Al Berto (1991)
[texto editado no cat. da exposição «Artbreaks» . Galeria Atlântica, Lisboa e Porto]


Um feixe de luz trespassa a pele.
Circula pelo sangue, vibra, e ao atingir o coração – com a sua melodia de lumes e de ecos – transforma os ritmos imutáveis das seivas e das artérias.
Sempre foi difícil mergulhar para dentro de um copo.
Não se sabe se haverá regresso e ele não pode afirmar:
- A vida do meu corpo é a minha vida.
Porque aquele que percorre o escuro das veias, arde – e os astros que levava consigo ficaram envoltos em chamas.
As mãos azuladas cobrem-se com esta cor esbranquiçada, que mais não é do que um presságio de cinzas. E o corpo, com suas texturas e viscosidades, é o túmulo da noite.
Nele coagulam os fogos celestes e se apagam as paisagens.


Lavradas as terras dos mortos, ele vai pela insónia dos vivos.
Avista outros corpos que levantaram voo com as aves e desaparecem, para lá do brumoso fio do horizonte
Espreita pelo microscópio. Nos dedos já não cintila a generosidade dos homens.
Os corpos adquiriram a dimensão do desejo que não tiveram – desenvolvem as suas próprias pestes.
E das pálpebras fechadas onde pernoita excluiu as efémeras imagens do mundo. Perdeu-se onde não há nomes.


Um dia, saber-se-á de uma destas gotas de vida irromperá um deus ou um insecto, um homem ou uma planta.
Resta-nos, por agora, observar aquilo que não veremos crescer e tomar forma conhecida.
Não se pode nomear o que estremece e começa a erguer-se.


No início são organismos translúcidos, caminhos tubulares por onde procura uma saída.
Manchas , canais por onde o olhar desce até alcançar espessuras gelatinosas, brilhos, líquenes de órgãos inacessíveis ao tacto.
Nada se assemelha ao que conhecemos. Ignoramos a função destes órgãos – a que espécie de corpo pertencem?
Estamos algures no fundo de um corpo. Desconhecemos se alguém, lá fora, o olha ou pode tocá-lo.
A alma é húmida.
Por isso, deste corpo ele se despede – e destes rios cuja rubra luminosidade dissolve as paisagens que tentou preservar: o pássaro que cegava com o perfume das glicínias, a abelha posada na corola crepuscular da terra. O húmus fresco do sonho, o mar preso na mão que abandonou a sua sombra no lado de dentro do rosto.
O rosto, onde vive o rosto com suas ramificações de sal?


Ele caminha até onde pode. Apaixonado, absorto com aquilo que mal se levanta e, simultaneamente, o destrói.
Enquanto avança, sussurra:
- Não é o que digo que corre riscos, quem arrisca sou eu.
E, ao morrer, falará do corpo como se falasse de um refúgio.
Mas é cedo ainda. Talvez se ponha a sangrar dos pulsos. Porque é provável que exista ainda harmonia entre a vida oculta do seu corpo e o universo.
É provável que haja cumplicidade entre um astro que se extingue e o tempo que pulsa no seu coração.


in “ O Anjo Mudo” obras de Al Berto / 4 Assírio & Alvim 2000

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