No início do século
XXI
No início do século XXI verificamos como quase evidente
o quanto os sintomas da pós-modernidade se manifestaram rapidamente
nos mais diversos domínios do que chamamos a contemporaneidade.
Nos domínios social, económico, linguístico e,
naturalmente no domínio cultural, onde se processa o seu modelo
e se identifica o seu processo de constituição e de acção.
Assim, ao olhar vertical, imbuído de um sentido crítico
e portanto classificador , individual ou singular e judicativo
da modernidade, aquela opôs um outro, horizontal, interfacial,
colectivo e erigido sobre a ideia relativizadora da pluralidade e da
pequena diferenciação. E mesmo se esta configura apenas
o lugar de uma forma transitória, a verdade é que no seu
espaço se esboçou todo um novo e estranho desenho.
Como Lyotard deixou claro logo a partir do final da década de
setenta, e sem então poder imediatamente configurar toda a extensão
dessa transformação, o advento e afirmação
da pós-modernidade caracterizou-se pelo esgotamento do que ele
mesmo chamou o sistema das grandes narrativas. Ou, então,
a sua sistemática mise-en-question em nome de uma dúvida
fundadora que tornou todas as interpretações e todas as
certezas objecto de relatividade como se verificasse, por generalização,
uma espécie de transbordar em todos os domínios da teoria
física que Einstein formulara no início do século
e, como tal, abrindo-se cada vez mais espaço, nos vários
campos, a uma validação baseada nos critérios da
argumentação. Em grande medida seria o desenvolvimento
deste modelo que, afectando a esfera da política, acabaria por
configurar o desenho actual das democracias no ocidente.
Ao lugar instituidor dos saberes e, portanto, das instituições
e práticas suas correlativas, que havia caracterizado o processo
da modernidade fosse este o saber da religião, da ciência
ou da arte, saberes específicos e autológicos centrados
sobre uma ideia de verdade e de certeza quanto aos seus próprios
objectos substituíu-se progressivamente o espaço
neutro de um não-saber difuso e relativizador, característico
da erupção generalizada do cultural, entendendo-se este
já não como espaço divergente, mobilizador de diferendos,
de rupturas ou até de valorização aurática
como havia sido caso no modernismo histórico mas
antes como lugar convergente de consensos, de continuidades (nomeadamente
institucionais) ou de banalização mediática. Em
que os diversos media disputam, sob a forma de um jogo de cumplicidades
frágeis e hetero-referenciadas, a ocupação e gestão
dos dispositivos legitimadores do discurso.
Resumindo, poderia dizer-se que se para o sujeito moderno era melhor
quebrar que torcer, uma vez que era movido por uma certeza que legitimava
a sua acção e a direcção que esta ia tomando,
gerando-se através dela uma dinâmica do projecto, para
o sujeito pós-moderno trata-se antes do mais de negociar, assumindo-se
que a sua é uma lógica do processo. Do mesmo modo que
se poderia inferir que à lógica do progresso da modernidade
se substituiu progressivamente uma lógica do sucesso, caracterizadora
da pós-modernidade.
Ou seja, e por definição: aberta, contingente, susceptível
de se transformar em função do seu contexto, porquanto
não é portadora, como na modernidade, de uma verdade apriorística.
No plano das resistências ao cultural difuso em quanto
este comporta uma subordinação da força de criação
ao poder banalizador e indiferenciador do económico , não
apenas pela própria cultura como sobretudo pela arte, verificamos
contantemente a abertura de outras linhas de acção, não
tanto programática segundo os modelos, esses já esgotados,
da instituição de diferenças profundas características
da forma moderna, como antes à informação de pequenas
acções com intenções de clivagem, características
da intervenção pós-moderna.
O que desde logo sobressai nas temáticas que permitem novos agrupamentos
feitos pelos pontos de interface, ou seja aqueles em que, a partir de
um dado problema, são susceptíveis de poder interessar
ao desenvolvimento da obra de certos artistas.
alguns artistas
Não se passa isto tanto porque os artistas ou pelo menos
alguns artistas se tenham integrado deliberadamente em correntes
ditas pós-modernas. Muito pelo contrário e uma
vez que não existe uma arte pós-moderna mas apenas uma
estética pós-moderna os artistas relacionam-se
com ela gerando cruzamentos impensáveis entre a natureza do seu
próprio trabalho, que pode corresponder até a temáticas
pessoais, com uma paisagem ou com um cenário que o não
suscitou originariamente.
Perceber-se-à bem isto quando pensamos no facto de muitas exposições
tenderem hoje a acontecer fora dos tradicionais espaços expositivos
galerias, museus tendendo antes a surgir em espaços
já não tanto alternativos como, sobretudo, diferenciados
das mostras normais das práticas artísticas: hospitais,
quartéis, universidades, enfim lugares que não se costumavam
conotar com a actividade artística, servem hoje de palco a intervenções
de teor artístico, sem chegarmos a perceber bem porquê.
E agrupando-se os artistas muitas vezes por temáticas exteriores
ao seu próprio trabalho, ainda que aí participem, medindo
assim a força comunicante das respectivas obras com um contexto
que em parte as ameaça, fazendo-as perigar na sua estrutura interna
seja esta conceptual, programática ou somente referencial
ao confrontar um trabalho específico com um contexto inespecífico.
Não é, como poderemos ver por este simples exemplo, o
trabalho do artista que se torna pós-moderno, mas é antes
o gesto que o aproxima de um dado contexto, afastando-o ao mesmo tempo
do seu contexto de origem, o que inscreve um sinal de pós-modernidade.
Nesse sentido a pós-modernidade, mais do que um idioma é
um código, mais do que um programa deriva de uma atitude. Ou
dito de outro modo, quiçá mais simplificador: mais do
que uma paisagem é um cenário.
As exposições, recorrentes hoje, que se subordinam a uma
dada temática, cruzada por sua vez com outras acções
colóquios, conferências, projectos de intervenção
urbana, etc. tendem assim a roubar ao artístico os instrumentos
tradicionais da sua verificação e da sua legitimação,
fazendo-o diferir no interior de dispositivos extra-artísticos.
Ou inscrevendo no próprio espaço museográfico e
com tratamento museológico o que tem sido tentado com
algum sucesso, ao menos de público objectos provenientes
de contextos extra-artísticos. Motorizadas no Museu Guggenheim,
exposições mistas de documentalismo e de arte, integração
de objectos de design ou de outras proveniências lado a lado com
os objectos artísticos, por forma a criar contextos inovadores
serão exemplos possívis desta nova lógica do cultural
disseminado.
sabem muito bem...
No caso da presente exposição, que junta quatro artistas
de orientações diversas entre os respectivos trabalhos
mas em que todos têm por comum a prática desse modelo
híbrido da instalação pedindo-lhes que se
ajustem a um determinado espaço e em torno de um determinado
tema, aquilo a que assistimos deriva em grande medida das considerações
que venho propondo. É num contexto de alguma diversidade relativamente
ao contexto artístico tradicional que se espera ver agir (ou
funcionar) a força comunicante das respectivas obras, ao mesmo
tempo que partindo do princípio que essa comunicação
irá ao encontro de uma temática abstracta o sangue
que se pretende tomar por tema geral de um acontecimento cultural.
Diria que esta é uma situação típica da
pós-modernidade na relação produtiva dos seus termos.
Aparecem-nos assim ligados num projecto comum os trabalhos de Gerardo
Burmester, Albuquerque Mendes, Pedro Tudela e Rui Chafes. Agindo inter-relacionalmente,
sem que estejam todavia definidos à partida quaisquer critérios
para a sua intervenção, se exceptuarmos a designação
de um espaço e de uma temática que todos assumiram enfrentar
por razões que respeitam a quem os escolheu.
Gerardo Burmester: A máquina terrena
Gerardo Burmester opta, aprofundando a rede conceptual que o seu trabalho
vem definindo desde há vários anos, por uma instalação
em que, através de um processo metafórico, questiona a
transmissibilidade, a comunicação e o armazenamento que
se associam ao sangue nas sociedades actuais.
A transmissibilidade, no que esta refere os óbvios problemas
da contaminação e todo o espectro de novas doenças
transmissíveis pelo contacto sanguíneo, da sida às
hepatites, que sendo pragas e motivos de assustar resumem ao mesmo tempo
o modo como a sociedade se tornou num corpo interdependente em que nenhuma
parte pode aparecer dissociada. A transmissibilidade da doença
pelo sangue é o outro lado da experiência positiva de restituir
vida através da transfusão e nela se confessa a indescernibilidade,
em todo o acto humano, das suas vertentes positiva e negativa operando
simultaneamente.
As doenças mortais que se podem alojar no organismo através
do sangue inscrevem lado a lado com o seu carácter espectral,
demonizado, o sinal positivo de uma partilha profunda na promiscuidade
da droga, da sexualidade, da contaminação por transfusão
em que ascende também o sentido de uma humanidade profunda,
capaz de se partilhar em toda a extensão.
A comunicação, no que respeita ao acto fundador que esta
partilha instaura, bem como à necessidade de reverter a doença
de volta ao campo social, onde se originou, recebendo na troca o auxílio,
o cuidado, a atenção ou tão somente o acolhimento,
no caso terminal, sinal tambem de uma sociedade que não renegou,
apesar dos valores individualistas que nela triunfam, um sentido de
entreajuda que inscreve a semente do novo humanismo contemporâneo.
O armazenamento, porquanto todo o corpo social entende, e bem, que na
contrapartida do dispêndio emblematizado ainda há
pouco pela sexualidade e hoje, em razão da prudência, pelo
consumo o armazenamento é um dado necessário à
sobrevivência e à conservação da energia
mais essencial.
É este o teor que julgo poder entender nesta obra de Burmester,
em que enormes tubos de ensaio servem para acolher um líquido
que figura o sangue, e que se comunica à porosidade de panos
absorventes que sobre ele descem para se alimentar.
Uma espécie de fábrica em movimento, gigantesca máquina
terrena, matriz perceptual e de sentido poético que se liga
como não poderia deixar de ser ao vocabulário material
e conceptual eleito pelo artista desde há muito: nos panos, nos
líquidos, nas relações entre as coisas e as matérias
numa espécie de dramaturgia de efeitos que objectualiza a sua
origem primeira de pintura.
Albuquerque Mendes: uma teatralidade cega
No trabalho de Albuquerque Mendes tudo quer ser pintura. Mesmo a performance
quer ser figura deslocada de um quadro, espaço fictivo de toda
a origem e de todo o destino. Se Mallarmé pôde dizer que
tudo existe em ordem a acabar em livro, Albuquerque poderia dizer que
tudo existe em ordem a acabar em quadro.
No caso da presente obra, que cita de algum modo instalações
anteriores, em que também o espaço de uma casa, no seu
interior, era convocado pela presença do papel de parede sobre
um muro, Albuquerque explora as três direcções principais
da sua obra: a instalação, a pintura e a performance,
através delas indagando os seus temas de eleição:
a teatralidade, o simulacro e a explicação.
Referindo-se o trabalho ao tema do sangue, que subordina toda a mostra,
o quadro por efeito de uma shaped-canvas (tela recortada segundo uma
figura) torna-se gota de sangue que pendurada numa parede se torna quadro.
A teatralidade é aqui figurada pela presença de um actor,
que explica o quadro a quem passa, falando de tudo menos do próprio
quadro, porque toda a linguagem tende a escapar ao objecto que a suscita,
vertendo-se sobre si mesma. Não havendo grande explicação
para a arte, as palavras tornam-se formas de figurar essa cegueira que
subjaz a uma teatralidade sem autor.
O simulacro percebe-se então na indistinção programática
que desconjunta o processo: nem propriamente pintura esta pintura
duvida de poder ainda haver pintura , nem performance é
à presença de um outro, de um actor, que se comete a representação
, nem teatro, porque toda a representação, se vista
em conjunto é que nos dá o sentido do quadro. Quadro dentro
do quadro, então, ou tableau-vivant sem propósito, esta
obra de Albuquerque Mendes remete em grande medida para uma espécie
de não-sentido da vida actual, em que tal como o sangue tudo
parece fluir sem que se perceba a razão dos processos que subjazem
a esse movimento das coisas.
A explicação consiste, no caso de Albuquerque Mendes,
na vontade de a este não-sentido opôr uma espécie
de ordem em que tudo se clarificaria, mesmo se o artista sabe que, como
o seu próprio trabalho já o indica, tudo caminha sobre
um estreito fio que conduz inexoravelmente até a um ponto de
desordem e de caos. Tal como no teatro de Ionesco.
Pedro Tudela: o sangue, a dor, a perda
O trabalho de Pedro Tudela há muito que se vê relacionado
com o universo arbitrário da perda, figurando de modo particularmente
incisivo o sofrimento.
Como se aquilo que ladeia cada passo da nossa existência não
fosse comandado senão por uma ameaça da dor, como se a
cada gesto viesse desde sempre acoplado o sinal de uma irremediável
perda.
É pois ele quem, deste conjunto de artistas aqui reunidos transitoriamente,
mais se aproxima de facto da temática geral. Na sua obra o sangue
é uma presença recorrente, não entendido como circulação
ou comunicação mas como urgência, como sinal perturbante
de que a fronteira entre vida e morte tende a tornar-se frágil
e como se a vida fosse então, em vez de aurora, prenúncio
brutal da própria morte.
O seu é pois um trabalho de coragem, de exorcismo e de afrontamento
perpétuo deste recalcado das sociedades contemporâneas.
Aquelas que erigiram os templos do consumo para melhor, através
da sua presença espectral e fulgurante, iludir a reflexão
quanto ao destino inevitavel de cada um de nós.
No caso da presente peça, a presença das camas de hospital
remete-nos de imediato para o universo asfixiante dos cuidados intensivos.
Os sons previamente gravados tal como a luz fluorescente, ajudam a reforçar
esta evidência do fóbico, do mesmo modo que a montagem
em cruz das camas serve para simbolizar a dimensão crística
que alegoriza a experiência individual e individualizadora do
sofrimento.
Se é verdade que o trabalho de Tudela tem sempre em si uma certa
marca do tétrico ou do mórbido, não é menos
verdade que nele se exalta igualmente uma consciência profunda,
isto é, não aterrorizada, da experiência de partilha
que inevitavelmente as situações terminais convocam. Não
porque estas nos sejam apresentadas sob a forma que seria grotesca de
um qualquer sentimento da euforia, mas porque o trabalho de Tudela tende
a despejá-las do sentido disfórico, depressivo, que nos
habituamos, talvez erradamente, a associar-lhes.
Há uma espécie de humanismo radical neste trabalho, uma
vontade de nele fazer visível a transformação da
própria dor em outra coisa. Por exemplo, no espaço comunitário
de um encontro em que a individualidade de cada um se pode reverter
num outro tipo de experiência sensível em que o Outro ganha
a dimensão urgente de ser, em vez de um estranho, o nosso próximo.
Rui Chafes: a morte imaginada
O trabalho de Rui Chafes, desde
sempre inscreveu uma marca de morte. A morte é, nele, como uma
grande dama que o chama desde o outro lado de um lago coberto de espessos
nevoeiros, brumas ancestrais. Essa é a sua medida e ela permanece,
ao longo dos anos, como consciência activa que esse trabalho transporta
da inexorável perda de algo de uma totalidade?
em nome e em razão do qual o gesto criador não apenas
ganha sentido como se torna destino, ao menos para alguns.
Informado por essa marca, o trabalho do esculor progride como se destinado
a colmatar a perda dessa totalidade, que no entanto age nele como ameaça
de desaparecimento ou sinal de um luto sem objecto identificado. De
onde a sua estranheza, a sua presença quase sempre perturbadora,
a frieza e o rigor da sua deriva, apostada em dar um rumo à vertigem,
ou uma medida ao caos.
No caso do seu trabalho aqui presente, o sangue nele figura-se por indeléveis
fios, como se escorresse, mas a morte que anuncia é imaginada,
senão eco de uma ferida imaginária. Morte de Parsifal,
ou de qualquer outra figura romântica, ela presentifica-se pelo
estatismo e pela relação ambígua entre a presença
física da escultura e uma zona de orifício um fosso
de palco , pela incandescência de uma luz projectada e pela
sinalização da obscuridade que parece querer envolver,
devorando-a, a própria peça.
Com o trabalho de Rui Chafes a morte jamais é tornada coisa real
mas é antes e sempre coisa imaginada, fio condutor de uma experiência
da própria vida, exaltação de uma grandeza sem
medida face à qual toda a humana experiência é contingente,
todo o gesto precário, toda afirmação de força
coisa sem sentido.
Por isso a sua obra se configura numa zona de vertigem, como se exprimisse
antes de tudo a funda consciência trágica de que todo o
gesto é perecível e de que toda acção é
transitória, mas que em razão disso mesmo se funda o estoicismo
da sua acção, do seu gesto e enfim da sua própria
presença.
O acto artístico, que na obra de Chafes é acto filosófico,
faz-se assim contra a noção de improvável: o improvável
de um reconhecimento, improvável de uma existência no vasto
mundo dos objectos, improvável de um sentido no meio de todo
o caos deste mundo. Improvável, enfim, da sua força poética
quando em presença de todas as forças de destruição
que nos rodeiam. Mas é justamente a partir desse improvável
que faz a sua mais grave prova de existência.