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O trabalho de Pedro Tudela mostra o avesso dos lugares. É a exterioridade
da interioridade e, porventura, a interioridade da exterioridade que aqui
se revelam. De resto, revelação, será uma das palavras-chave
do seu percurso, que nesta exposição adquire uma evidência
aurática: "EYE CAN SEE". Como se o pin-tor, previamente
imerso na penumbra amniótica e silenciosa do interior mais íntimo
("MUTE...LIFE", 1993) em que as formas embrionárias de
um corpo prévio estabelecem subtis cumplici-dades morfológicas
com o orgão que dá a ouvir (a cóclea do ouvido interno),
descobrisse um trajecto, produzisse uma rup-tura, praticasse um "ARTBREAK"
(1991).
É a prática sistemática da ruptura, e a exploração
continuada da fenda, que permite descobrir um acesso, um trajecto que
devolva ao interior do corpo a luminosidade que ele exige. Pedro Tudela
procura, não a "carne do visível" de que fala
Merleau-Ponty, mas a visibilidade da carne. Ao praticar a espe-leologia
no interior do corpo (do nosso corpo), descobre, subi-tamente, um clarão,
uma avalanche de luz que inunda o olho e se despenha sobre um lugar profundo.
Descobre "o céu sob as entranhas" de que fala a poesia
de Luis Miguel Nava.
O seu trabalho é simétrico do trabalho do oftalmologista
(e também do neurologista): enquanto estes, com ajuda de um of-talmoscópio
e de um foco luminoso exterior, investigam o fundo do olho na esperança
de que ele revele algum sinal do interior, o pintor olha fundo o olhar,
a partir do interior, do seu interior, na esperança de que o exterior
se revele.
O olhar coloca-se num território ambíguo, ele simultaneamente
vê e dá a ver. As transparências do olho são
o equivalente ana-tómico desta ambiguidade. A córnea, o
humor aquoso, o crista-lino, o humor vítreo, oferecem-se, sem resistência
(em situa-ções fisiológicas), à travessia
da luz. Da luz exterior, mas também da luz interior, ou seja, da
penumbra que escurece a pupila e faz dela o núcleo de sentido do
olhar. Quando olhamos o outro e o queremos violentar com o nosso olhar,
é na sua pupila que ancoramos. A pupila é o buraco negro
do olhar e, como to-dos os buracos negros, exerce um perturbante poder
de atrac-ção. É pela pupila que o mundo entra em
nós, é por esse estran-gulamento flexível que a realidade
se disponibiliza para ser olhada. (Um excesso de realidade, quero dizer
um excesso de luz, é contrariado pela diminuição
da pupila). Mas é pela pupila que nos mostramos, mesmo quando morremos
um sinal de muito mau prognóstico é a presença
de midríase fixa (isto é, de uma pupila dilatada que não
reage á luz).
O olhar coloca-se, com o olho, nesta interface ambígua, neste território
de múltiplos sentidos. Ele dá à corporologia que
Pedro Tudela vem construindo, um novo corporema, e além disso uma
nova visibilidade, uma visibilidade do vísivel
A
MOLDURA PERMEÁVEL
O Olhar olha-se. Sobre um fundo construído através da associa-ção
inesperada de elementos da anatomia descritiva do olho, destaca-se uma
moldura. Uma moldura é uma suspensão de sentido. Através
das suas dobras criam-se territórios e opor-tunidades para a transformação
dos mecanismos do olho numa nova fisiologia do olhar.
O pintor pinta no interior da moldura (da pintura). Mas importa sistematicamente
do exterior os vários corpos do ohar. A mol-dura é uma membrana
biologicamente activa. Deixa-se atraves-sar, por forma a que a viabilidade
da célula seja assegurada. A viabilidade do território plástico
que o pintor destaca da indi-ferença do mundo, depende, também,
da permeabilidade selec-tiva da sua membrana. A membrana do pintor é,
como todas as membranas biológicas, um fronteira fractal, ou seja,
uma fronteira que liga mais do que separa. Uma fronteira que é
mais superfície do que linha.
Essa ideia de fronteira uma fronteira que se desdobra infini-tamente
na angústia da sua incompletude parece-me ser um dos temas
recorrentes (ou recidivantes, para usarmos uma lin-guagem mais biológica)
da obra de Pedro Tudela. Além disso, ela anula a polaridade do
transporte. Ela destaca o interior do exterior e, ao fazê-lo, aproxima
os dois territórios.
1) Um olhar poroso, adere ao mundo. Recorta-se na evidência da sua
silhueta. Como se o olho fosse espremido para humeder a superfície
e as lágrimas descobrissem na facilidade do papel o seu trajecto
arboriforme. É ainda um olhar indeciso, uma man-cha imprecisa,
uma presença insegura. O olhar insinua-se, imprime-se através
da matéria fluida.
2) A fluidez dissipa-se progressivamente. Dois olhos, ligados pelo quiasma
óptico, olham-nos com firmeza. O quiasma óptico, ao juntar
os dois olhares, permite a construção da visão pro-funda.
O pintor intui que as imagens se redistribuem imediat-mente. O olho esquerdo
partilha com o direito a sua visão do mundo, mesmo antes de se
verificar a oportunidade neurológica para a produção
de qualquer visão do mundo antes da via óp-tica ter
atingido o córtex cerebral. Dois olhos seguros e unidos nas suas
convicções.
3) Mas o olhar sabe que a sua eficácia se funda na turbulência.
Ele faz mergulhar a raíz num território que se organiza
com a lógica de um "atractor estranho". Todas as órbitas,
todos os percursos, são legítimos desde que caiam no campo
do olhar, no lago oftálmico. É aí que ele encontra
o sentido, é aí que o olhar vê. O olhar só
vê o que pode ser visto. E pode ser visto tudo aquilo que cabe dentro
do olho. As pálpebras abrem-se para mostrar esse lugar conjectural.
4) Todavia, o olhar só escapa à supervisão do olho,
se ousar li-bertar-se. Se for descolando, progressivamente, da tirania
do já visto. Afasta-se. Fica apenas ligado por um istmo de frágeis
fibras nervosas, que lhe permitem manter o pé, que lhe ofere-cem
uma derradeira, e porventura ilusória, moldura real. O olhar navega
no azul de que é feito. É um olhar ciclópico, o olhar
de um olho só, que, agora, despreocupado com a sua efi-cácia
fisiológica, parte à descoberta do seu próprio mundo.
O QUADRO QUE VÊ
Dum quadro espera-se toda a disponibildade para ser olhado. Espera-se
um oferta de sentido. Mas quando este se antecipa e decide, ele próprio
olhar-nos, instala-se, seguramente, alguma angústia. O quadro rouba
o nosso olhar e arrasta consigo o ponto de vista. O olhar do quadro, afrontoso
e violento, é refor-çado pelo uso de lentes convergentes.
Ele olha-nos com uma autoridade professoral. E fá-lo a partir de
uma superfície me-tálica semi-espelhada que, com uma arrogância
suplementar, dispensa e devolve o nosso olhar.
É como se própria obra tomasse conta do autor. O olhar passa-se
(para o lado da obra). Ao fazê-lo destrói dois lugares: o
do autor e o do leitor. A exterioridade do trabalho é questionada
pelo reforço do seu ponto de vista (do ponto de vista da obra)
a obra deixa de estar no mundo, para passar a ser e a olhar o mundo.
A moldura, espessa e larga para a dimensão do espaço que
define, absorve e concentra o olhar do mundo. O mundo olha-nos através
do quadro.
UM CORAÇÃO NO OLHAR
O coração servia, em "ONE... FITS ALL" (1994-1995),
as estra-tégias biológicas do desenvolvimento: a aorta transformava-se
num caule contorcido à procura da forma ideal num espaço
de conflito. Ao mesmo tempo, do outro lado da rua (D'HEART SIDE, 1994-1995),
sangrava sobre toalhas brancas.
A toalha ensanguentada permanece nesta instalação como que
a sugerir que, agora, o coração se colocou logo atrás
do olhar. O olho chora sange. A pupila no vídeo, substituída
por um woofer, vibra com o ritmo dos batimentos cardíacos. É
esse coração do olhar que as pálpebras, intermitentemente
abertas (em tempo real), vão revelando.
A citação, como ligação e como construção
de passagens, rea-parece aqui através de um fragmento de talha
(a asa de um anjo?) e de um coração de cera. O coração
e a talha tem em co-mum a obsessão pela prega. O coração
pregueia-se no desen-volvimento embrionário, para criar espaços
e, posteriormente, quando as pregas se fundem, autonomizar as suas cavidades.
Um coração de cera é um voto, um desejo de um coração
fun-cionante e eficaz, da presença duradoura da batida. O coração
é o único orgão cujo silêncio é insuportável.
As pregas de um painel barroco são silenciosas, mas criam a expectativa
da ocupação, instalam o desejo nos lugares que guardam ciosa-mente.
Este coração saltou para a superfície, emergiu e
destacou-se do olhar vigilante e dissolvente. Talvez peça, agora,
ajuda a uma asa para voar mais alto e arrastar consigo o olhar.
OLHO-EU
No trabalho que se pretende emblema e assinatura da instala-ção,
o retrato do artista quando criança encima uma sucessão
de elementos que se organizam numa narrativa linear, só inter-rompida
pelo anúncio de uma sonoridade estereofónica (como na memória
dicotómica de "STEREO: EVEN FLOWERS CAN HEAR YOU", 1990).
Um desfile duchampiano em que a história do au-tor e da sua visibilidade
os óculos que usou, por exemplo se cruza (ou melhor,
se alinha) com a história da sua obra a referência
kitsch que se condensa nesse olho único e central. Afirmação
de identidade, afirmação de visibilidade (EYE CAN SEE).
O pintor arrasta do mundo objectos que passam ao lado do mundo, protegendo-os,
assim, da irrisão inevitável. Ele dá a ver, enquanto
se dá a ver. O pintor pinta-se. E faz da sua bio-grafia a biologia
do seu trabalho.
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