[1.0] O vórtice tecnológico
A simbiose entre a razão
e o horror que tem vindo a dominar o séc. XX deu origem a um
mundo cada vez mais ambíguo.
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J.G. Ballard
A presença fantasmagórica e sinistra de uma certa aura
negativa da tecnologia cria efeitos bem claros na definição
de um novo modelo de relação com o mundo. À tecnologia
e respectivas benesses devemos associar o seu contraponto o acidente
, numa relação de retroversão muito próxima
da dependência entre negativo e positivo das técnicas clássicas
de impressão fotográfica.
Em muitos dos seus últimos textos e entrevistas, Paul Virilio
num misto entre o profético e o apocalíptico
lembra constantemente essa inelutável relação bidireccional
entre a tecnologia e a sobrevinda do acidente. De facto, a cada desenvolvimento
tecnológico corresponderá o seu alter-ego acidental, qual
Dr. Jekyll e Mr. Hide da positividade moderna. É impossível,
por exemplo, pensar o automóvel e a vertigem vectorial associada
a qualquer artefacto da deslocalização física,
sem remeter de imediato para a imprevisibilidade (apenas uma questão
de cálculo de probabilidades) do acidente; tal como é
inevitável o estabelecimento do mesmo género de analogia
para qualquer outro tipo de dispositivo tecnológico. O acidente
é então a sombra da tecnologia, ou melhor, a própria
natureza da técnica estará mesmo imbricada profundamente
no acidente (1)
. Mas o maior paradoxo desta relação umbilical
entre a tecnologia e o acidente é o facto do desenvolvimento
da primeira depender sobretudo da efectiva realização/acontecimento
do segundo. Sem o acidente não teríamos nem o engenho,
e muito menos a necessidade, de aperfeiçoar as tecnologias de
que nos vamos servindo no dia-a-dia.
Se saltarmos para o domínio do corpo, do nosso corpo ainda humano,
e tentarmos uma comparação com esta tensão incontornável
entre a tecnologia e o acidente, facilmente verificaremos que também
o nosso tecno-corpo está dependente da ameaça do acidente-doença
para o seu apuramento, pelo menos até à chegada do seu
acidente total a extinção das funções
vitais. E é exactamente essa inevitabilidade que paira sobre
o nosso corpo desde o primeiro momento que lhe permite encontrar as
modalidades de sobrevivência em contextos mais ou menos adversos.
A viabilidade do nosso organismo sustenta-se pois nessa mesma imperfeição
que o torna tão sujeito ao acidente a vida é
uma entidade plástica que associa o rigor da construção
à variabilidade da expressão(2)
, como afirma Paulo Cunha e Silva.
De qualquer modo, nas últimas décadas e com especial ênfase
em tempos mais recentes, as ameaças sobre o nosso corpo enquanto
organismo complexo e em interdependência com o meio ambiente tomaram
proporções bem diferentes e permitem falar da possibilidade
de um acidente biológico total na verdadeira acepção
da palavra, de um modo não muito diferente das ameaças
que se abatem igualmente sobre os organismos sociais tal como os conhecemos.
Será esse acidente total que permitirá falarmos de uma
era pós-humana, tal como o acidente tecnológico global
poderá abrir caminho a uma era pós-tecnológica?
Ou, de uma forma menos apocalíptica, significará apenas
mais uma etapa da complexificação orgânica que permite
uma adaptação à adversidade do meio?
Se a arte é ainda um interessante território para habitar
isso deve-se em grande parte à sua capacidade de iludir constantemente
a rigidez cadavérica, tal como um organismo vivo faz da mobilidade
e capacidade de adaptação um instrumento de sobrevivência.
Da mesma forma que a vida, também a arte associa uma determinado
rigor conceptual a uma variabilidade elástica e essa é
uma das suas virtudes: o modo como se torna prolongamento orgânico
da própria vida (daí a falácia das dicotomias vanguardistas
arte vs. vida)
Ontologicamente, a arte tem lutado constantemente contra a sua própria
extinção, contra o seu singular acidente total
a tão propalada morte da arte. Mas também o processo de
fazer arte revela interessantes reverberações
desta tensão entre a razão e o caos. De diferentes formas,
todo o acto criativo acaba por jogar-se entre os pólos do acaso
e do controlo, do caos e da necessidade. A ideia de experimentação,
tão cara à particular afirmação da arte,
está então inevitavelmente ligada aos diferentes equilíbrios
da balança que pesa exactamente esses dois pólos. Sem
o acidente, sem o acaso, nunca teríamos sequer a possibilidade
de falar de arte, pelo menos não do modo como nos habituámos
a entendê-la. A existência do acidente, a imprevisibilidade
do acontecimento, é matéria fundamental para a sua sobrevivência,
aproximando-a às contingências incontornáveis da
própria vida.
[2.0] Target: o paradoxo da sobre-iluminação
Il faut viser pour tuer.
Ce qui tue cést le regard, la désignation.
......................................................................................Paul
Virilio
A palavra alvo pode servir como adjectivo para indicar a brancura ou
a pureza de um determinado referente; para substantivar a cor branca,
o objecto que procuramos atingir com um projéctil, ou, ainda,
uma parte do nosso globo ocular; e, em sentido figurado, o fim, o objectivo,
o desígnio ou o motivo de uma determinada acção.
Esta pluralidade de significados constrói desde logo um interessante
ponto de partida para uma análise à instalação
Target, de Pedro Tudela.
Ora, tentemos desenhar um triângulo constituído pela (1)
pureza, pelo branco que resulta numa espécie de grau zero, umas
vezes por excesso (por ex., a acumulação na síntese
aditiva da física óptica) ou por defeito (por ex., o mito
da pureza associado à virgindade de um suporte imaculado); pelo
(2) olhar que designa; e, finalmente, pela presença de um (3)
objectivo determinado. São estes três pólos possíveis
para uma viagem tentacular através desta instalação.
O primeiro liga-se essencialmente à oposição entre
transparência e opacidade, entre pureza e conspurco, entre o corpo
são e o corpo doente. O segundo pode ajudar a lembrar uma opticidade
perdida, não aquela que constitui uma das essências, por
exemplo, da pintura, mas a opticidade paradoxal dos rotoreliefs de Marcel
Duchamp. O último, se quisermos, transforma o espectador no alvo
desta intervenção através de uma particular modalidade
indutiva tão característica à arte e que Pedro
Tudela utiliza incisivamente.
Voltando às divagações da primeira parte deste
texto, devemos recordar que o alvo corporiza de um modo ideal a relação
imperfeita entre o acaso e o controle, entre o objecto estático
e o projéctil em movimento, entre a origem e o destino, entre
o desejo e a realidade; isto é, concentra em si uma referência
incontornável a possibilidade do acidente bastará
recordar o drama desse Guilherme Tell contemporâneo que foi William
Burroughs.
Em cada uma das três longas salas do CAPC, Pedro Tudela instala
um conjunto de peças que jogam exactamente entre a contingência
necessária do fazer criativo e a contingência
inelutável da vida. Vejamos. Logo na primeira, frente a frente,
opõem-se uma série de alvos sonoros e um conjunto
de singulares auto-retratos. Ao desvio conceptual de um objecto obliterado
a meio-caminho entre o alta-voz e o alvo clássico, é contraposto
o rosto do artista também ele dissipado, mas agora por intermédio
de um processo de sobre-iluminação. Tal como aqueles alvos
se ofereceram passivamente aos projécteis que os perfuraram,
também Pedro Tudela abandonou o seu rosto, comprimido contra
o vidro, ao disparo luminoso de um scanner. Assim, aos disparos de uma
arma que ainda reverberam continuamente pelas salas, e que estabelecem
uma conexão entre o desígnio do olhar e o objectivo do
disparo, opõe-se a cegueira momentânea de um rosto imóvel
e cadavérico uma espécie de máscara mortuária
à qual não falta nem a deformação característica
nem a ausência do sinal vital do olhar.
Na segunda sala, três situações distintas recordam
o acidente como condição paradoxal da sobrevivência.
Não poderemos entender as fotografias de uma banal via-rápida,
envolvidas por um estranho tecido plástico, que se unem através
de um cordão umbilical a um capacete tombado pelo chão,
como uma intensa alegoria a esta condição contingente
da existência humana? Já a enorme pintura sonora
que preenche a parede do fundo parece revisitar o paradoxo duchampiano
a que ainda há pouco me referia, oferecendo um último
leito de eleição na majestosa moldura trabalhada
que lhe serve de aconchego para um conjunto de sons que a encenação
coloca a meio caminho entre o perturbador e o reconfortante, e que as
assépticas caixas colocadas na mesma sala, encerrando estranhas
fabulações à volta da massa encefálica,
acabam por reforçar.
A última sala funde de um modo mais directo a proposta da primeira,
fechando o círculo da instalação. Sobre mais um
auto-retrato hiper-iluminado é ainda projectada uma nova obliteração
uma espécie de alvo semi-hipnótico que serve normalmente
para designar o início de uma película cinematográfica
, e que é de facto um grau zero da exposição
mediática, um processo contraditório de anulação
do subjectivismo através de um recentramento no indivíduo.
É que independentemente das pulsões autobiográficas
que atravessam fortemente estas obras, aquilo que se destaca é
a sua capacidade de passar do particular para o geral, única
condição para a sobrevivência no plano estético
desse mesmo latejar.
Terminando, gostaria de fixar-me numa outra questão que me parece
central para melhor entendermos esta exposição e que se
prende com a sua aparente diversidade, ou melhor, com o modo como nos
vão surpreendendo diferentes conjugações para um
mesmo problema. Na realidade, estes trabalhos de Pedro Tudela, revelando
uma continuidade com as suas propostas no território mais restrito
da pintura, utilizam processos conceptuais que não criam fracturas
significativas navegando embora em territórios disciplinares
mais híbridos. Expõe-se deste modo com alguma clareza
que o problema central para a prática artística tem o
seu âmago bem distante de uma exclusiva preocupação,
ou mesmo auto-reflexão, sobre os meios ou processos técnicos
em jogo. Aquilo que nos é oferecido à experiência
é apenas um dos resultados possíveis de uma intensa experimentação.
Também a proliferação de técnicas, suportes
e meios que esta instalação impõe acaba por encaminhar-nos
no mesmo sentido. De facto, sendo inegável que o trabalho de
Pedro Tudela acaba por ser conduzido numa afirmação evidente
de uma autoria distintiva tal como a modernidade a instaurou, também
parece claro que o faz através de uma aparente diversidade que
pode afigurar-se contraditória. Ora, se a ideia de estilo muitas
das vezes passa apenas por uma uniformização epidérmica
da obra através do recurso a objectos reconhecíveis
como pertencendo a uma mesma família; ou ainda pela construção
de um percurso que deve constituir-se sem rupturas significativas, isto
é, obrigando cada novo lance a relacionar-se de um modo límpido,
mesmo se apenas superficialmente, com o anterior , uma estratégia
de fragmentação e multiplicação do processo
criativo através do recurso constante à experimentação
pode contribuir de modo decisivo para o seu desvanecimento, ou, pelo
menos, para a sua instauração sobre diferentes pressupostos.