| Kosovo, ou a irreversibilidade da própria História Fernando Lacerda
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| Abordar a questão do "guerra do Kosovo" (leia-se, da acção militar da NATO nos Balcãs) tem muitas outras implicações para além da guerra em si mesmo. Ou, de outra forma, a partir desta "questão temática" as ideias em análise podem levar-nos muito para além de fórmulas de discussão puramente mecanicistas no sentido de encontrar um réu e condená-lo, ou um justiceiro e apoiá-lo... Se bem que esta "questão prévia" possa e deva ser colocada, por nela estarem incluídas muitas outras. Assim, nesta guerra, quem condenaremos? A NATO, porque é, aos olhos do mundo, claramente o "agressor"? Ou a Jugoslávia, que terá fornecido àquela os "argumentos" da agressão? Não será fácil a resposta, apesar de a pergunta nos parecer de uma simplicidade tremenda... Ou melhor, na dúvida, por não querermos assumir uma das partes evitando rótulos demasiado óbvios , às duas hipóteses anteriores respondemos com uma terceira: esta guerra não tem qualquer sentido!!! De facto, esta guerra não tem qualquer sentido. Mas a questão não é assim tão simples... e, por outro lado, se a resposta fosse, em definitivo, esta, quem nos garantiria que ela era, efectivamente, justa?! Quem assegura, nesta nebulosa de (des)informação propagandística, que a nada ser feito não seríamos, no futuro, condenados pela História de "complacência" e "reconhecimento público internacional" de um regime que, embora aceitando a Carta dos Direitos do Homem, os afronta(va) de forma violenta? Se quiséssemos (embora não seja essa a intenção do presente texto), poderíamos continuar a fazer o levantamento de inúmeras questões em torno desta guerra, até ao limite de uma discussão que extremasse posições e colocasse frente a frente os tradicionais tópicos de "direita" e de "esquerda", segundo os quais o "alinhamento" parece, às vezes, fazer-se de uma forma mais emotiva que racional e de resultados nem sempre claros, se observados a alguma distância. Mas, não vamos por aí. No momento, penso que é necessário confrontarmo-nos com a realidade dos factos, mais que lamentarmo-nos de forma algo inconsequente... Porém, esclareça-se, eu não os aprovo; condeno-os! Mas tanto a causa como a consequência! Mais, penso que urge encontrar soluções políticas(!) e parar definitivamente com a(s) barbárie(s) da acção militar(!) Por último, e esta é, efectivamente, a questão central em discussão. Dadas as actuais circunstâncias de perturbação da estabilidade e segurança mundiais, que a "guerra do Kosovo" criou (pelos contornos que a rodeiam, se tivermos em atenção os seus intervenientes), será fundamental que se criem alternativas geo-políticas estratégicas internacionais. Passemos em revista alguns dos factores influentes na discussão; sendo o primeiro, necessariamente, a questão da "Guerra Fria". Surgida num contexto político específico em que claramente se afrontavam dois Blocos antagónicos, num processo de alargamento contínuo das suas áreas de influência estratégica vital , este modelo de "distribuição de forças" acabou, curiosamente, por se revelar um meio relativamente eficaz na prevenção de uma "guerra quente"... pese embora o clima de tensão e ameaça permanente de uma catástrofe nuclear. Porém, se foi um instrumento eficaz na prevenção de uma guerra de destruição maciça e global, acabou por se transformar num factor altamente instigador de inúmeras "guerras de terceiros", em confrontos que só, aparentemente, não eram entre os blocos directamente... E aqui, admita-se, nenhuma organização de prevenção da paz mundial (leia-se ONU) as conseguiu evitar. Então, essa não será, certamente, a solução. E a História não conhece o retorno às soluções do passado. Como segundo elemento de análise, coloca-se, naturalmente, o outro factor influente: a ONU. Ela, também, surgida num contexto político específico e com propósitos e objectivos que ao mundo inteiro, no seu tempo, tranquilizavam... Mas, mesmo não entrando na análise da sua acção, tudo o indicia(!), no momento actual parece ter entrado num ciclo de vida descendente... Como a sua congénere e antecessora SDN, aparece agora aos olhos do mundo "moribunda", por ineficaz. Os esquemas institucionais que lhe davam consistência e garantiam aceitação (tácita!) Conselho de Segurança e Capacetes Azuis funcionaram enquanto funcionaram... mas já não se revêem neles os "desprotegidos". (Se assim fosse, as questões de Angola e Timor Leste, entre outras, há muito estariam solucionadas...). E quando se aponta a questão da orgânica institucional da ONU quer-se dizer, exactamente, que os "potenciais agressores" admitindo que os poderosos, em potência, o poderão ser neles se fazem representar de forma a poderem exercer um (questionável) direito de "veto", directamente... ou por interposta pessoa, em "alinhamentos" e "proteccionismos" usados como argumento no jogo geo-político e estratégico global. Ora, é aqui, a meu ver, que a questão deve ser colocada; já que a "relação de forças" internacional não é, hoje, a de uma "guerra fria"... Por isso, há que perspectivar outra(s) alternativa(s), aceitando-se que a ONU a manter a actual orgânica institucional , no quadro do novo milénio não se apresenta aos olhos do mundo como mediador credível, nem capaz de se afirmar como regulador dos conflitos internacionais. Vê-se, isso sim (há muito!), substituída por uma outra organização inspirada num modelo de funcionamento bem diferente e perigoso... porque "enfeudado" ao poder político e militar dos EUA e cujo conceito estratégico redefinido e aprovado na comemoração do seu 50º aniversário confirmam. Mas esta não poderá ser a solução do futuro, por não representar a totalidade dos países condição fundamental no quadro de uma solução política global e, por isso mesmo, susceptível de inspirar o aparecimento de outras organizações que se reclamem do mesmo "direito". [Questão, aliás, sobejamente conhecida e publicamente discutida, quando se pretende saber se a acção militar da NATO se configura no quadro do "direito internacional" como "intervenção", ou como "agressão"]. A "guerra do Kosovo" levanta, como inicialmente dissemos, muitas outras questões além da problemática da guerra em si mesma, por demonstrar a evidência de um ciclo histórico, que (parece) se cumpriu, e a transição para um outro, de que não vislumbramos ainda bem os contornos em definitivo, mas ressaltam já alguns dados do seu perfil. Assim, e de acordo com o exposto, vivemos, no momento actual, um momento de transição, e de excepção gerador de desequilíbrios graves e de forte perturbação da "ordem mundial". Por isso enquanto sujeitos actores da própria História , cabe-nos encontrar os caminhos que nos conduzam ao paradigma que se anuncia. Isto é, (embora deixando à História o papel da sedimentação pelo tempo, que lhe dá corpo), há que perspectivar um novo quadro de alternativas, nas quais a Europa no seu todo (Leste incluído!) e o Mundo, em geral, repensem o seu potencial de influências e, com base nele, promovam a constituição dos organismos internacionais capazes de garantir e restabelecer os equilíbrios agora quebrados. No imediato por ser óbvio que se não aceita a actual posição de forças relativas no quadro dos países que integram a NATO , a Europa deve criar mecanismos de "defesa" capazes de travar a manifesta supremacia económica, política e militar dos EUA, e assumir-se, de uma vez por todas, na sua plenitude continental. Depois, e porque o recentemente aprovado conceito estratégico da NATO marca definitivamente o fim de um ciclo de vida da ONU, é imperioso que se encontrem as estratégias de correcção do "desvio" agora iniciado, para que se entre num novo ciclo de vida, renovado e mais consentâneo com o jogo de forças políticas, económicas e militares globais que o actual Conselho de Segurança não representa. Consciente do risco que que representa aventar hipóteses de soluções estratégicas globais, quando as variáveis são, simultaneamente, influentes e dependentes num jogo de poderes sempre favorável aos poderosos , não deixo, no entanto, de colocar algumas ideias para discussão. Assim, a meu ver, as alternativas poderiam passar, por três vectores de força distintos, em articulação conjunta de poderes: 1º. a criação de "alianças" de defesa estratégica continentais como processo para "travar" o peso da NATO, por um lado, e dos EUA, por outro, já que se admite a continuidade desta aliança militar; 2º. a abolição do "direito de veto" no âmbito do Conselho de Segurança da ONU e a sua substituição por um Conselho Intercontinental (no qual estariam representados, proporcionalmente, todos os continentes) tendo por objectivo o restabelecimento de um novo "equilíbrio" de forças global; 3º. a criação de um "Conselho de reserva política moral", no vértice da ONU a quem competiriam as últimas decisões e de que fariam parte todos os países, sem excepção, em representação continental, rotativa e anual. Em resumo, à semelhança de outras crises iniciadas nos Balcãs, a "guerra do Kosovo", de abrangência muito para além do "regional", dada a indisfarçável presença no conflito de forças de variadíssimos países e continentes, além dos problemas que decorrem da própria guerra em si mesma, pode muito bem estar também na origem de uma viragem geo-política e estratégica mundial num quadro de relações diverso do já vivido, dada a irreversibilidade e continuidade da História! Fernando Lacerda |
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