| Os Balcãs: outra guerra de classe Celso Alvarez Cáccamo
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| Entre as características mais notáveis dos discursos actuais sobre a guerra em Jugoslávia, surpreende ver a omissão quase total da questão económica. Perante a afirmação de que também na guerra em Kosovo e Sérvia há bases económicas, tanto a direita quanto a esquerda parecem reagir com incredulidade, se não com clara oposição. Mas a omissão ou a negação da dimensão económica no discurso público são reveladoras. O Secretário Geral da OTAN, Javier Solana, em entrevista na TVE-2 de Espanha no programa El Tercer Grado (15-Abril-99) diz explicitamente Esta guerra não é polo petróleo ou polos recursos naturais: é uma guerra polos valores humanos. Se a deciframos minimamente, a afirmação implicita um ingénuo reconhecimento de que outras guerras semelhantes sim que foram e são polos recursos naturais. Perante esta descrição de Solana, um vê-se forçado a tentar compreender por que esta guerra especificamente não seria polos recursos naturais; quer dizer, um vê-se forçado a procurar as (inexistentes) circunstâncias peculiares polas quais a expulsão e o massacre de centos de milhares de kosovares das terras em que habitavam, e o intuito dos exércitos europeu e americano de, aparentemente, devolvê-los a elas, não seria um conflito económico. Eu pessoalmente não conheço nenhuma guerra que não seja económica, e a explicação é singela: nas sociedades de classes (todas), na matança de outros seres humanos há grupos armados que actuam como instrumentos de elites económicas e políticas para a apropriação de recursos e para o mantimento de regimes economicamente injustos (todos). A guerra armada é um produto da lógica de exploração que começa na submissão ao roubo do trabalho assalariado. Se o princípio geral se aplica a todas as guerras, o argumento (mesmo da esquerda) de que a de Jugoslávia não é uma guerra económica só se pode interpretar em dous sentidos: (1) como uma implicação de que no Kosovo não há um interesse económico específico das elites (as sérvias incluídas) na apropriação de recursos materiais; ou (2) como uma total conivência discursiva da esquerda sociológica com a ideologia capitalista neoliberal. É curioso que os únicos argumentos sobre as ramificações económicas da guerra sejam emitidos nesta altura por economistas do sistema, que não podem deixar de reconhecer e analisar, como bons positivistas, os efeitos futuros do conflito. É iluminador, portanto, que até a esquerda chegue a omitir ou negar as bases económicas da guerra. Isto é índice do seu papel estrutural coadjuvante e da total ineficácia do seu discurso para a emancipação da humanidade. Neste negamento ou omissão, as esquerdas desaparecem de facto como hipotéticas forças de progresso. Mesmo um crítico como Chomsky, no seu artigo em Znet (http://www.zmag.org/), Çopyright (http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/sr070.htm) e EL PAÍS (19-Abril-99), salienta sobretudo a construção da credibilidade dos EUA e da OTAN, e incide escassamente nas razões económicas. Analisemos a seguir o argumento (1), quer dizer, que em Sérvia e Kosovo não haveria recursos materiais em jogo. Para começar, este argumento cai polo seu próprio peso se constatamos que o principal recurso material no campo de batalha é a vida --e, portanto, a capacidade produtiva-- de centos de milhares de pessoas, assim como as suas terras no Kosovo, todo o tecido produtivo do país, e as fábricas e outros centros de produção em Sérvia. Guillermo de la Dehesa, vice-presidente do (nada libertário) Centre for Economic Policy Research de Londres, explica em EL PAÍS (Los efectos económicos de la guerra en Yugoslavia, EL PAÍS, 17-Abril-99, p. 18) como a guerra acarreta a destruição inicial de força e capacidade produtiva, logo o endividamento dos países estragados, a inflação, e o desvio de renda do sector público para o privado (muito especialmente, deveríamos salientar, para o sector militar-industrial, em termos de I+D em tecnologia e indústria bélica). Isto, em termos mais claros, significa uma maior dependência do estado em guerra (mesmo o estado social) do capital privado, e o endurecimento das condições de trabalho da gente, que deverá fazer fronte às dívidas do estado, à reconstrução das fontes produtivas, e à inflação ulterior. Adicionalmente, poderíamos acrescentar, no Kosovo há em jogo recursos financeiros estrangeiros. Solana anuncia na sua entrevista que a sua última iniciativa antes de deixar (eventualmente) a secretaria da OTAN a finais de 1999 será a proposta dum plano de prosperidade para os Balcãs que, traduzido a linguagem mais clara, significará a imposição polas elites europeias e americanas duma política de endividamento sobre o estado dum estável e democrático Kosovo e, possivelmente, duma já estável e democrática Sérvia, e de outros estados. Isto é equivalente a novo Plano Marshall proposto por Tony Blair e polo que já clamam alguns economistas. O significativo é que seja o Secretário Geral duma organização militar quem se anticipe a propor um plano de prosperidade económica. Na sua entrevista, Solana não oculta que a Europa do euro não deve permitir o que está a acontecer no Kosovo. Em resumo, numa Sérvia e num Kosovo independente (que possivelmente será o resultado final desta guerra) ou incorporado a Albânia, a população empobrecida deverá portanto levar sobre as suas costas a recuperação económica e sofrerá os maiores custes da inflação e da dívida pública. De qualquer ponto de vista progressista deve-se reconhecer que esta acentuada forma de submetimento da população à lógica do capital é singelamente um efeito positivo para o capital transnacional. De facto, o dólar segue a subir, e o índice bursátil Dow Jones segue a registar dia após dia máximos históricos. Mas é claro que isto só poderá acontecer numa Europa estável, enquanto no Ruanda ou em Burundi operações de estabilização semelhantes talvez não poderiam garantir a geração suficiente de capital local como para subordinar a economia destes países a uma dívida de longo alcance. Guillermo de la Dehesa esclarece também uma questão importante quanto às supostas despesas armamentísticas dos países ocidentais numa guerra destas dimensões, e exemplifica-o com o acontecido na Guerra do Golfo: o 90% das despesas militares norte-americanos foram finalmente satisfeitas polos países árabes (concretamente Kuwaite) ou por Grã Bretanha. A lógica, simplificando, é a seguinte: as forças trabalhadoras dos países invadidos acabam pagando a dívida pola sua salvação militar, pola sua independência e pola reconstrução do país logo da destruição desencadeada durante a sua salvação. De novo, é difícil negar que isto seja uma importante implicação económica da guerra de Jugoslávia. Os recursos do Kosovo Mas existe também outra importante dimensão económica do conflito: o próprio controlo dos recursos económicos no Kosovo. O discurso propagandístico da OTAN bombardeia-nos com o mito de que o Kosovo é um território pobre. É certo que a sua produção e renda interna leva anos em declive, em grande parte pola gestão económica. Parte da economia kosovar sustinha-se assim com as divisas que mais de 400.000 albaneses emigrados enviavam ao país. (constata-se, por exemplo, que entre os soldados do Exército de Libertação do Kosovo circulam profusamente marcos alemães). Uma parte deste dinheiro procedia duma florescente economia de tráfico ilegal de drogas ilegais (o 40% dos estrangeiros encarcerados em Europa por narcotráfico são albaneses). Durante os últimos anos, o dinheiro negro atraiu também muitos albaneses que fugiam da pobreza de Albânia, de maneira que entre os refugiados políticos kosovares em Albânia devem-se contar sem dúvida antigos refugiados políticos albaneses no Kosovo (além, claro, de sérvios, ciganos, turcos e outras minorias). Porém, significativamente, no discurso público sobre a economia do Kosovo omite-se uma questão crucial: A região de Trepca, no norte --e mais em geral toda a cordilheira de Kopaonik que se estende até Sérvia desde perto de Pristina-- contém importantes depósitos de minerais pesados (zinco, chumbo, níquel, e talvez ouro e prata), e é reconhecidamente uma das zonas mineiras mais ricas de Europa. Aos complexos mineiros unem-se centrais de energia eléctrica que nutrem o Kosovo e Sérvia, e que estão no alvo tanto dos sectores industriais sérvios, quanto das emergentes elites kosovares, e do capital internacional. Nesta região encontra-se também grande parte dos mosteiros que simbolizam a alma cultural do povo sérvio. A total omissão destes dados no discurso público resulta esclarecedora. Desde 1989, com a eliminação da autonomia administrativa do Kosovo, o regime sérvio leva uma campanha sistemática de desalbanização não apenas das instituições públicas e bancos do Kosovo, mas também dos complexos mineiros de Trepca, esvaziando-os de albaneses nos quadros de gestão. As minas (com capital majoritário do estado) estão apenas agora a um 40% da sua capacidade, mais por falta de investimento que de potencialidade. Desde meados dos 90, aproximadamente, o governo sérvio acometeu um plano de privatização e de abertura ao capital estrangeiro. Concretamente, o holding grego Mytilineos tem capital em Trepca desde 1997 (http://www.gfbv.de/gfbv_e/docus/kosova_e.htm), e a companhia alemã de aceiros Thyssen investiu no convenientemente desalbanizado complexo Feronikl. De facto, durante anos o capital europeu começava a abrir-se à privatização do estado por Sérvia (quer dizer: apoiava de facto o regime do ditador Milosevic), enquanto o capital norte-americano não participava ainda do processo. Porém, o governo não-legitimado do Kosovo não reconhecia esta política. O líder independentista Ibrahim Rugova, presidente eleito da auto-proclamada República do Kosovo, declarou em Novembro de 1997 que o governo sérvio pôs à venda as principais indústrias do Kosovo, como Trepca, a Companhia Eléctrica, Feronil, etc., que é simplesmente uma forma de pressão económica sobre Kosovo e os seus cidadãos (http://www.aimpress.org/dyn/trae/archive/data/199711/71118-027-trae-pri.htm). Rugova, antecipando a efectividade da independência do Kosovo, continuou a advertir que o governo kosovar anularia todos os contratos com as companhias estrangeiras. Na altura, os governos dos países ocidentais não apoiavam o direito à autodeterminação do povo kosovar. A importância estratégica destes recursos para as economias de Sérvia e do Kosovo é reconhecida explicitamente por Ibrahim Rugova numa entrevista concedida a Politique Internationale em Outono 1998 e reproduzida na Internet em The Electronic New Presence (http://www.enp.cz/ascii/98/49/yu_kosovo.html). Algumas citações de Rugova serão suficientes:
Rugova não afirma que estas sejam as únicas razões dos interesses do estado sérvio polo Kosovo. Mas o seguinte comentário é especialmente revelador:
O próprio Rugova parece reconhecer, portanto que, de todo o Kosovo, o interesse fundamental do estado sérvio é a região norte. Dentro deste quadro, como também sugere Carlos Taibo em EL PAÍS (20-Abril-99) a ideia de uma Grande (mas empobrecida) Albânia que reúna por fim todos os albaneses, ao Sul, não iria contra os interesses dos poderes sérvios. Obviamente, como bom líder nacional, Rugova não explica por que, se o objectivo era evitar o sofrimento de milhares de pessoas, a partição de Kosovo não resultou na altura um compromisso aceitável. Afinal, um Kosovo mais pequeno, sem a zona mais rica do país, seria, de todos jeitos, um Kosovo independente, e poderiam ter-se evitado o êxodo e o massacre. |
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